
Foto: Ana Mendes
O piano de Gisela Mabel fala. Isso parece não fazer sentido, tratando-se de um instrumento. Mas fica perceptível quando você escuta o EP “Álbum de Retratos”. Nele, a pianista luso-angolana conta histórias. Algumas são mais densas, outras coloridas. Possui diversas nuances. Como o título sugere é aquele antigo álbum de fotografias com registros de diferentes momentos, situações, realizações, conquistas, choros, lutas. Os brasileiros poderão ter a oportunidade de experienciar e ouvir a “voz pianística” de Mabel no dia 08 de novembro na Casa Natura Musical, em São Paulo.
Essa é a primeira vez que ela se apresenta no Brasil, por isso, também se diz com muita expectativa porque tem apreço e identificação com o país. “Acima de tudo, estou muito feliz. Tô querendo muito este momento porque, para além de ser a minha primeira tour internacional, é num país que me diz tanto. Estou com muita expectativa”, disse ela na conversa que tivemos para a Casa Natura Musical sobre os conceitos do EP, composição, o passeio que ela faz entre jazz e música erudita, e planos futuros. Para quem não conhece Gisela Mabel, o vídeo de “A Tarde”, gravado no Chez Georges Rio [no Rio de Janeiro] serve como um spoiler.
Adailton Moura: Como está preparando o show da Casa Natura Musical?
Gisela Mabel: Olha, na Casa Natura Musical vai ser piano solo. E ele traz aqui uma característica muito especial para mim. E é aquele momento que para mim é um exercício. Aliás, um exercício de honestidade e de entrega total porque estou ali sozinha com o piano em cima de um palco, onde também fico completamente exposta na minha verdade. Vou apresentar o meu EP “Álbum de Retratos” em um formato adaptado. Serão 60 minutos e pretendo trazer algumas coisas novas que farão parte do meu próximo álbum. Inclusive, vai sair um single até o final do ano que também vou apresentar. Estou muito de coração aberto para esta experiência. Quero acima de tudo apresentar o meu trabalho, dar-me a conhecer e criar laços com o público brasileiro porque o concerto acontece no mês que é muito importante para a valorização da cultura, da memória e das raízes afrodescendentes. Eu acho que isso dá um sentido a esta apresentação.
Adailton Moura: Quando você está tocando , parece que você e o piano se tornam um. Tem uma conversa, e o instrumento fala, apesar de não ter voz. Transmite uma mensagem. De que forma essa conexão acontece no palco?
Gisela Mabel: Eu acho que essa conexão vem de muito tempo atrás quando eu senti que o piano seria um companheiro para a vida. E essa ligação aconteceu de uma forma muito muito natural… Imagine, eu sempre tive alguma dificuldade em expressar o que sentia através de palavras. Foi no piano que encontrei essa forma de expressão. Não tinha que dizer nada para as pessoas saberem exatamente o que é que penso em relação a determinado assunto. Acho que essa ligação vem dessa dificuldade. Por isso, tornou-se a minha voz. Percebes? Como alguém que está em cima de um palco para cantar, eu sinto que utilizo o piano para poder falar.
Adailton Moura: Realmente, você transmite mensagens através dele, mas queria entender se esse tipo de som, essa música, cabe em alguma caixa… É jazz, é música erudita ou é a junção de diferentes sonoridades?
Gisela Mabel: Olha, eu acho que é uma mistura de várias coisas. Eu não consigo dizer em que caixa ela está. Tem várias influências tanto do clássico, como do jazz, da música brasileira e africana. Mas isso é o resultado daquilo que eu fui procurando explorar e viver. Mas se eu tivesse que encaixar em alguma prateleira não conseguiria. E sinceramente, também não me é relevante encaixá-la, percebes!? Eu, às vezes, tenho imensas dificuldades quando as pessoas perguntam: “Mas isso é o quê, isso é jazz?” Tanto que eu às vezes estou num festival de jazz, outras vezes estou num festival de música erudita. Portanto, eu acho que é o que as pessoas sentirem e quiserem que seja.
Adailton Moura: É um tipo de linguagem universal, que fala com todo mundo a todo momento…
Gisela Mabel: Porque isso também é um reflexo do que nós somos. Na minha vida sempre tive muita influência de muitos lugares, de muitas pessoas e música da mais variada que se pode ouvir. Eu acho que as coisas com que eu me identifico estão presentes na minha música. Às vezes é uma coisa mais ritmada, outras vezes é uma coisa mais neoclássica. É um bocadinho daquilo que estou sentindo e quem eu sou. Minha verdade.

Foto: Vinicius Mochizuki/Divulgação
Adailton Moura: Quais suas maiores influências brasileiras?
Gisela Mabel: Olha, eu comecei a ouvir música brasileira pela bossa nova. O meu percurso começou por aí. Muita bossa nova e muito samba. Eu diria Chico Buarque… E depois há várias formas de encontrar inspiração e influência. Por exemplo, Alcione é uma mulher inspiradora. Ela inspira-me pela mulher que é. E esse seu lado poderoso trago para a minha música. O Chico Buarque é mais pela forma que ele fala. Uma forma muito simples e singela. Me identifico com o jeito que ele arranja para dizer as coisas… Mas é sempre muito complicado quando perguntam sobre influências. Juro-te, na minha cabeça te diria estas duas. Conheço muita coisa, mas diria estas duas.
Adailton Moura: E como nasce uma música instrumental?
Gisela Mabel: Olha, a minha pergunta é: como é que nasce uma canção com palavras? [risadas].
Adailton Moura: É uma boa réplica…
Gisela Mabel: São coisas que eu tenho refletido e não tenho respostas concretas. Mas para mim, neste momento, a música instrumental está a nascer daquilo que eu sinto. Nasce com as emoções. Ou seja, em determinada situação, eu sinto-me mais, sei lá, nostálgica, mais refletiva. Então, procuro esse tipo de som que traz essa emoção. Agora, é muito difícil materializar isto instrumentalmente, porque eu às vezes penso que a música vem de lugares que eu mesma não consigo aceitar. Eu visualizo isto como, por exemplo, várias caixinhas aqui dentro [da cabeça] com várias memórias, com várias coisas a acontecer. E a música vai descrever mais ou menos o que é que estou vendo. Eu sou o canal que transporta sentimentos através da música. Não sei se estou a fazer entender.
Adailton Moura: Sim, claro.
Gisela Mabel: É uma forma que também comecei a observar. Há momentos, por exemplo, em que estou ao piano e quero sentir-me de uma determinada forma. Imagina, estou a sentir falta de me sentir num mundo mais sonhador e vou à procura desses sons que me transportam para esse mundo idealizado na minha cabeça que é sonhador. É difícil definir.

Adailton Moura: E qual é a mensagem que você pretende passar com “Álbum de Retratos”… Cada música é um tipo de fotografia? Pergunto isso porque o disco tem várias nuances que vai subindo, descendo, e nos leva para vários ambientes, como se fossem registros de momentos.
Gisela Mabel: Sim… Eu basicamente abri um álbum de fotografias e comecei a ver várias fotos e elas me levaram para vários momentos diferentes. Álbum de Retratos é uma interpretação daquilo que eu já vivi até o momento em que eu compus o EP. São várias pessoas e histórias que cruzaram a minha vida… De vários momentos que foram importantes para mim. É quase uma auto-reflexão sobre essas coisas. Os cinco temas são meus pensamentos, formas de me conhecer.
Adailton Moura: Você falou de um single que vai apresentar no show na Casa Natura Musical. Mas queria saber quais seus próximos planos musicais. Está planejando um próximo disco ou no momento está focada nas apresentações ao vivo?
Gisela Mabel: Estou dividida em duas partes neste momento. Uma parte de mim está focada nas apresentações para que as pessoas conheçam “Álbum de Retratos”, porque há muita gente que ainda não o conhece. E outra parte de mim, de fato, está a pensar no próximo álbum. Já tenho alguma coisa, um conceito. Também gostaria de trabalhar com algumas colaborações, inclusive do Brasil. Neste momento estou nessas duas vertentes.
Adailton Moura: Existe alguma diferença entre tocar no seu país e para um público de fora ou a conexão através da música, independente do lugar que esteja tocando?
Gisela Mabel: Tenho sentido que existe essa conexão pela música. Depois eu acho que a única diferença, pelo menos naquilo que eu tenho vivido, é que há públicos que são mais reservados e outros que são mais abertos à experiência. Na verdade, são todos abertos à experiência, mas uns mostram mais que outros. Acho que é isso. Mas no sentido geral, acho que, daquilo que eu tenho vivido nos concertos, as pessoas entram naquela bolha que eu construo e depois vão nessa viagem.
Adailton Moura: Tem observado quem são as pessoas que têm ouvido música instrumental hoje… Existe um perfil geracional?
Gisela Mabel: Todo mundo está em busca de algo novo, de uma experiência nova. Eu acho que hoje em dia, como as coisas começam também a estar um bocado saturadas, as pessoas estão à procura de sonoridades novas e começam a querer incorporar instrumentos mais eruditos. Eu acho isso ótimo. Eu, por exemplo, não consigo definir idades nos meus concertos. Às vezes vem uma pessoa a me dar um feedback que é mais velha e outras vezes recebo o mesmo de uma pessoa mais jovem. Não tem essa definição ainda, mas eu acredito que as pessoas andam todas à procura de coisas novas.