Juçara Marçal: “O Modernismo é apenas um dos prismas do Brasil”

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“Acertar o relógio da arte no Brasil”. Com essa proposta, a Semana de Arte Moderna de 1922 levou artistas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Heitor Villa-Lobos e Di Cavalcanti ao Theatro Municipal para o que eles consideravam “o maior escândalo artístico que São Paulo já tinha visto”. Celebrando o centenário do evento que é considerado o principal ponto de ruptura da arte brasileira, a Casa Natura Musical vai conversar, ao longo do ano, com artistas de diferentes cenas e regiões sobre como os ecos e os silenciamentos do Modernismo perduram no imaginário artístico nacional até os dias atuais. 

A primeira convidada do Ecos de 1922 é Juçara Marçal. Conhecida pelos seus trabalhos nos grupos Vésper Vocal (1998 – 2004), A Barca (1998 – 2006) e Metá Metá (2011 – atualmente), a cantora, compositora e professora de canto lançou em 2021 o seu segundo disco solo, Delta Estácio Blues, eleito o melhor lançamento musical do ano pelo Prêmio Multishow e pela APCA.  

Nascida em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, Juçara desenvolveu uma relação estreita com a “Paulicéia desvairada”, palco da Semana, e com o trabalho de Mário de Andrade, um de seus idealizadores. Falamos sobre (a falta de) protagonismo negro e indígena na Semana de 22, Samba do Estácio e sobre quem ela acha que seriam “os novos modernistas”. Leia na entrevista abaixo:

CNM: Juçara, seu trabalho no grupo A Barca envolvia um trabalho de pesquisa baseado na missão folclórica do Mário de Andrade, a qual aconteceu numa fase já posterior à Semana, a partir de 1938. Como você acha que a figura do Mário e o modernismo influenciam o seu trabalho, especificamente, e o cenário artístico como um todo? 

Juçara Marçal: No meu caso, o Mário, principalmente, é uma figura importante, tanto por causa desses desdobramentos que você citou no meu trabalho, mas também como escritor, como diretor de cultura aqui em São Paulo. Era uma pessoa com um olhar aberto para a diversidade, que talvez ainda não tivesse ferramentas ou não entendesse exatamente como trazer o protagonismo negro e indígena para as obras, mas que pelo menos já tava olhando para esses grupos de pessoas. 

Na Barca, tudo o que a gente fez de pesquisa partiu desse olhar do Mário sobre a cultura tradicional brasileira. O estopim foram os livros e diários escritos por ele nas suas incursões pelo Brasil, pesquisando essas músicas de cultura tradicional, tanto aqui em São Paulo, com o samba de bumbo, quanto no Nordeste, com o coco, a música de feitiçaria, entre outros. Tudo isso de uma riqueza infinita na música brasileira e ele teve esse cuidado de mandar missões de pesquisa folclórica para esses lugares, para registrar todas essas manifestações culturais e artísticas.

E eu, como professora de canto, acabou que esse material resultante das pesquisas do Mário também virou ferramenta para as minhas aulas, porque são músicas de aprendizado fácil – você aprende fácil porque elas vêm acompanhadas de uma manifestação corporal que ajuda na assimilação –; são riquíssimas melodicamente e proporcionam uma interatividade da obra com os alunos muito importante. Desde que começamos nosso trabalho na Barca, não só eu, mas todo mundo do grupo que também trabalhava com educação utilizou esses registros como material didático. E até hoje, algumas dessas músicas fazem parte do meu repertório em shows também.

Quando nós conversamos sobre o Delta Estácio Blues, na segunda edição do Goma, te perguntei se você achava que o Brasil tinha superado o Modernismo, cem anos depois da Semana de Arte Moderna. Na sua resposta, surgiram questionamentos sobre o apagamento de movimentos como o samba do Estácio (RJ), contemporâneo às vanguardas europeias, na contramão da crescente mitificação em torno da Semana de 22 da estruturação da cultura oficial brasileira. Queria que você falasse um pouco sobre isso. 

É um pouco o que eu falei sobre o protagonismo. Ainda que muitos daqueles artistas que estavam ali no Theatro Municipal olhassem para o que havia de produção negra e indígena, negros e indígenas não apareciam como protagonistas. Se a gente pudesse fazer uma crítica ao que faltou à Semana de 22, porque é meio anacrônico ficar pensando no que “faltou” lá atrás, seria essa. Mas se efemérides servem para alguma coisa é para nos darmos conta do que ficou faltando e colocarmos na roda. Recentemente, li dois textos interessantíssimos que vão nessa linha: um do José Miguel Wisnik e outro da Lilian Schwarz, que questionam o protagonismo dado apenas aos artistas do Theatro e mitificação em torno da Semana.     

Pensando agora nos desdobramentos da Semana, principalmente no Manifesto Antropofágico do Oswald de Andrade, de 1928, que vai acabar servindo de base para movimentos como a Tropicália no que diz respeito à procura de uma arte com uma identidade brasileira, mas não nacionalista: você acha que hoje, um século depois, ainda faz sentido essa busca?

A ideia de descolonização do Manifesto Antropofágico é interessante. De você pegar o que é de fora, deglutir e transformar em algo “nosso”. Mas esse “nosso” também é muito duvidoso. Que “nosso” é esse? O que representa o Brasil? 

Me incomoda o lado meio nacionalista que, apesar de não ter sido a intenção inicial do modernismo, pode dar brechas para a transformação em um discurso ufanista, fazendo a gente cair numa armadilha que desemboca no nazismo – no caso brasileiro do começo do século 20, no integralismo. 

Mas o legado mais importante do movimento é o de nos distanciarmos dessa maneira de nos olharmos através do olhar do europeu e do estadunidense. São tantos outros olhares: América Latina, África, Ásia…

Imagem do Manifesto Antropófago escrito por Oswald de Andrade e publicado na Revista Antropofagia.

Além do Mário de Andrade, que outros artistas de 22 te influenciam?

Gosto muito do Oswald também. E Villa-Lobos, que é referência tanto na música, quanto no cinema. São figuras que têm uma potência mesmo de reverberação na nossa cultura. Mas é muito fogaréu para apenas um dos prismas que existiam naquele momento de Brasil. Outras coisas também estavam rolando e que bom que a gente pode olhar para essas outras coisas hoje. 

Pra você, quem seriam os novos modernistas?

A gente vai cair na armadilha do anacronismo das efemérides [risos]. Se é para falar de quem eu tô curtindo hoje, eu tô ouvindo muito FBC, Marina Sena, Mbé. Eles tão pensando de outro jeito o fazer da arte aqui no Brasil. É empolgante.

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